Castro Alves

Pois é… a vida não é engraçada? Às vezes a gente roda, roda e acabamos parando no mesmo lugar de onde saímos. Já aconteceu com você de se deparar em uma situação onde, em pleno século 22, sinta que está em outra época? Como se estivesse em uma máquina do tempo? Comigo aconteceu recentemente.

Estava eu, há meses sem cortar o cabelo. Concordo que ele estava um tanto rebelde. Mas com um tamanho excelente. Só faltava corte. Depois de muita insistência, mãe me convenceu a dar um rumo na cabeleira e, como estávamos na rua, decidimos ir a um barbeiro. Barbeiro esse cujo nome não citarei por indicação dos meus advogados. Segundo eles, posso ser processado. Mas na minha forma de ver, estaria fazendo um favor à população, evitando com que mais pessoas fossem vitimas. Vamos então chamar o lugar de POMBOS. Onde cagadas literalmente acontecem.

Chegamos ao POMBOS e um sujeito se ofereceu prontamente para dar um jeito no ninho que se formou em minha cabeça. Expliquei que não queria que se tirasse muito cabelo… queria mantê-lo grande. Um “sim senhor” sonoro veio de lá. Começamos… corta daqui, de lá… cabelo no chão, revista na mão…

Quando o infeliz termina, vem todo contente com o espelho para mostrar a obra de seu talento nato. “Está torto”, disse eu. Depois de um 720º (porque ele escaneou duas vezes de 360º minha cabeça, provavelmente duvidando de mim), mas acabou concordando dizendo profissionalmente: “ta mesmo”.

Lá vai ele de novo consertar a primeira cagada. Tenta corrigir, não consegue, mas finge q fez algo e diz que termina. Para não detonar mais ainda a cabeça, agradeci e sai do estabelecimento. Encontrei com mãe e aí veio a bomba. Mãe é um ser especial, concorda? Não importa quanta besteira façamos, quanta besteira falemos e elas estão lá, presentes. Prontas a defenderem suas crias com garras e dentes de leoas ferozes. Às vezes nos afagam com todo o carinho do mundo sem dimensionarem o impacto de tal elogio. Foi essa a bomba.

Saindo do barbeiro (ele realmente merece esse nome), caiu em meus ouvidos o seguinte elogio: “Ta lindo! Parece o Castro Alves!”. Quase voltei para agredir o sem noção do barbeiro.

Com todo respeito que tenho ao “poeta dos escravos”, falecido em 1871 aos 24 anos, um corte de cabelo em pleno século 22 ao estilo de Castro Alves simplesmente não rola! São 138 anos de diferença! O barbeiro parecia ter colado uma peruca na minha cabeça!

Acabou certo? Antes fosse. Depois que o cabelo secou, virou um modelo channel que acaba com todas as expectativas e possibilidades que a vítima, no caso eu, possa vir a ter em um encontro. Constrangido, mas com a cabeça erguida, resolvi partilhar o fato com uma amiga de São Paulo. Ativei a webcam (maravilhas da modernidade) e mostrei como estava. Cara, ela ficou 5 minutos rindo. Faltou ar para a criatura. Ela ficou vermelha. Me telefonou só para rir na minha cara. Claro que não conseguiu falar nada e desligou o telefone.

mecastro alves

Depois dessa, enfiei a cara no travesseiro e fui o primeiro cliente em outro estabelecimento. Chegando lá, o cabeleireiro (melhor que barbeiro), disse que para resolver de fato o problema, só com máquina zero. Ficar careca de tudo. Porém, sensato que era e muito profissional, conseguiu consertar o “new look” na minha cabeça. Mesmo assim pediu para que eu voltasse em vinte dias para refazer as arestas. Cada situação que a gente passa na vida.


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